Sobre o Linho

Por José Fernandes de Lima*

Gravada por Fagner, Elis Regina e Roberto Carlos, a música “Mucuripe” ganhou prêmios, tornou-se um grande sucesso e, até hoje, continua emocionando as pessoas.
A letra, escrita por Belchior, em certo momento, diz:

Calça nova de riscado
Paletó de linho branco
Que até o mês passado
Lá no campo inda era flor

Ao dizer esses versos, o poeta fez referência ao fato de a roupa ser nova e do paletó ter sido feito de um material especial, o linho de colheita recente.

A beleza desses versos poderia nos levar a tentar reproduzir os caminhos seguidos pelo linho desde a sua situação de planta, fixa lá no campo, até ser transformado num bonito paletó que se move junto com o personagem principal.
Conversando com alguns colegas, constatei que poucas pessoas sabem de onde vem o linho que nós vestimos. São poucos os que conhecem o linho como planta.

Por conta dessa constatação, resolvi dividir com os leitores alguns conhecimentos sobre os processos pelos quais o linho passa desde a fazenda até a loja de vestuário.

O linho é uma planta pertencente à família linaceae, nativa da Turquia, que se espalhou pela Ásia, Europa, América do Norte, África e América do Sul. Atualmente, o maior produtor mundial de linho é a Rússia, que responde por aproximadamente 50% da produção global. Não obstante os números da Rússia, as fibras consideradas de melhor qualidade são provenientes da Bélgica, da França e da Holanda.

O linho (Linum usitatissinum) é uma planta herbácea, cuja altura oscila em torno de 80 a 90 centímetros. Seu ciclo de vida é curto, cresce em menos de 70 dias. Os principais produtos derivados do linho são as fibras longas utilizadas para fabricação de tecidos e as sementes das quais podemos extrair o óleo.

A fibra têxtil é obtida a partir do talo da planta. Na preparação das fibras, os talos são separados das sementes, lavados, colocados para secar, macerados e curtidos para livrar as fibras de resíduos indesejáveis. Em seguida, eles são colocados para secar e depois triturados. Por último, é feita a fabricação dos fios e do tecido.

O tecido feito de linho é reconhecido por sua leveza, resistência e durabilidade. As cores naturais variam desde o marfim até o cinza. O linho de cor branca é obtido mediante um processo de alvejamento.

Durante muito tempo, o terno branco feito de linho foi sinônimo de status. Era a roupa preferida dos coronéis comandantes da política brasileira.

Estou convencido de que a falta de intimidade dos meus colegas com o linho (planta) se deve ao fato dele ser uma planta pouco cultivada na nossa região.

O cultivo do linho para produção de fibras têxteis foi praticamente extinto durante a década de 1960, devido à concorrência das fibras sintéticas. Atualmente, no Brasil, o linho é cultivado apenas no estado do Rio Grande do Sul.

O cultivo que ainda acontece hoje no Brasil é focado no aproveitamento das sementes. São as conhecidas sementes de linhaça, que servem para alimentação e para fabricação de óleos.

O óleo de linhaça é utilizado na fabricação de cosméticos (xampu, condicionador de cabelo e hidratante para a pele).

A semente de linhaça é também vendida como alimentação alternativa. É apresentada como sendo rica em fibras insolúveis, um tipo de fibra que promove os movimentos do intestino, ajuda a combater a prisão de ventre e contém boas quantidades de ômega 3 e vitamina E. É também indicada para diminuir o colesterol e os triglicerídeos. Seus vendedores afirmam que ela diminui a velocidade de absorção do açúcar dos alimentos, ajudando a controlar os níveis de glicose no sangue.

Voltamos ao início da nossa conversa para dizer que não obstante essa viagem científica tenha sido provocada pelos versos lidos, o poeta não tem nenhum compromisso com a estreiteza da realidade. Seu compromisso se concentra na beleza e na emoção.

Precisamos de poetas.

José Fernandes Lima é físico, professor e ex-reitor da UFS*

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