Para fortalecer a democracia é preciso prorrogar a campanha e adiar eleições

Por João Miras
Quanto menos recurso e menos tempo de campanha, menos debate político. Quanto menos debate político, menor a representatividade. Onde não há construção orgânica de representatividade social, os fluxos da esperança cidadã estão interrompidos. Quanto menor a representatividade, menos democracia. Representatividade débil produz democracia tíbia. Democracia fraca produz projetos de ditaduras que se coletivizam como fogo em palha seca via redes sociais. Corações populares secos de esperança e representatividade são campo fértil para a revolta.

Por conta das frustrações recentes na vida pública nacional, talvez tenhamos nos esquecido que campanhas eleitorais são momentos de debates e de celebração da democracia e da representatividade, de canalização e catalisação de demandas e necessidades.

Com certeza, o TSE terá o espírito garantidor desse direito fundamental do cidadão, que é o acesso à democracia. Penso que o tribunal tomará em breve a decisão de adiar o 1o turno das eleições municipais para novembro, o que ofereceria aos candidatos a possibilidade de cultuarem a democracia por meio da campanha eleitoral plena a que tem direito.

Única forma de contato com o eleitor hoje em dia nas pré-campanhas das eleições municipais, a campanha on-line é a mediatização completa e absoluta das relações dos candidatos com os eleitores. Será que essa telerrelação, essa comunhão a distância, é o suficiente para atar os laços de compromisso de que necessita o cidadão para sensibilizar o ente político de suas necessidades, e energizá-lo para sua consecução quando do exercício do mandato? Será que esse novo modelo não fere de morte a qualidade da representação pelo evidente distanciamento que se estabelece entre as partes promotoras da democracia representativa? Não estaríamos assassinando esperanças neste frio processo que estamos por estabelecer?

As respostas são óbvias. Hoje sabemos que os comícios, as panfletagens, as reuniões de bairros, os carros de som, os bandeiraços, as passeatas, o corpo a corpo, o pé no barro, as visitas domésticas, os abraços e os apertos de mão na praça são a própria pulsação do processo democrático nas eleições municipais e, por que não, nas legislativas estaduais e federais. Deixar estas campanhas eleitorais perderem a pulsação das ruas pode custar muito caro à nossa democracia. Depois não adianta reclamar do surgimento de camadas sociais clamando por ditadura, já que o povo vem sendo afastado da festa democrática e do contato com os candidatos.

Desaproximar o político da população é infectar a democracia do “coronavício” do distanciamento, do desinteresse, da desimportância. Quando as populações não se interessarem mais pela política, o espaço público terá acabado e a comunhão social será substituída definitivamente pelos radicalismos e pelas bolhas epistêmicas de causas identitárias de diametral oposição sistemática.

A responsabilidade da justiça eleitoral num primeiro momento, e do Congresso Nacional num segundo, é muito grande. Será que estão enxergando a anemia profunda em que se encontra nossa democracia e como as eleições municipais são importantes para revertermos esse processo?

Eleições municipais são as pernas do corpo equilibrista da nossa democracia. São as raízes do tronco da liberdade. Não deixemos que morra esturricada pela falta d’água da atenção das instituições e dos poderes constituídos na federação. Candidatos a vereadores e prefeitos são a encarnação das esperanças próximas do cidadão e, além da decisão sobre a postergação, paira ainda sobre eles a imensa dúvida sobre se os recursos do fundo eleitoral dos partidos vai chegar aos rincões.

Certo é que valorizar as eleições municipais é oxigenar a democracia. Uma eventual desatenção do judiciário e do legislativo federal com as eleições municipais deste ano e dos próximos pode custar muito caro num futuro não muito distante. Como certa vez disse um bom político: “As pessoas não vivem no país e nos estados, as pessoas vivem nas cidades”.
Para quem ama a democracia, vale realçar o que nos mostrou o poeta: “Todo artista tem de ir aonde o povo está. Se foi assim, assim será: na estrada de terra, na boleia do caminhão”.

Sobre João Miras:

João Miras é um publicitário ítalo-brasileiro, de 56 anos, que já trabalhou em dezenas de cidades, 13 estados brasileiros e em outros quatro países. Realizou mais de 170 trabalhos em 40 anos de profissão. Notabilizou-se na publicidade governamental e eleitoral atuando para agências, produtoras, institutos de pesquisa, partidos e empresas.

Estrategista de marketing político, é reconhecido como um dos grandes public brand makers do Brasil por ter se especializado em planejamento estratégico de comunicação para governos e prefeituras com foco na construção de marcas de governança.

Autor de dois livros, orientador acadêmico, influenciador digital (20 mil seguidores no Twitter e Facebook) e palestrante com mais de 300 conferências — como as realizadas para a Fundação alemã de estudos políticos Konrad Adenauer e várias universidades —, é também referência no meio acadêmico como fonte de pesquisa para defesa de teses em várias universidades, como PUC, Unicamp, entre outras.

Teve seu trabalho citado em livros e, além de ser um dos pioneiros em public branded content, é especialista em neuromarketing e comunicação subliminar, tendo concedido centenas de entrevistas e escrito artigos para os principais jornais, TVs e portais do Brasil e outros países.

Além de outras agências, foi diretor de operações da Propeg-CP, uma das maiores e mais premiadas do Brasil, colecionando prêmios nacionais e internacionais e nove vezes o prêmio de “Agência do Ano”.

Experiente roteirista, diretor e editor, é conteudista de vídeos governamentais, eleitorais e de empresas públicas com foco em marketing digital (redes sociais e canais on-line). Também ministrou cursos de formação política para as executivas dos maiores partidos do Brasil.

Foi representante brasileiro no 1º Congresso Latino-Americano de Consultores Políticos, realizado em San José, Costa Rica, na América Central, em 2002, e é integrante da Alacop (Associação Latino-Americana de Consultores Políticos), EAPC (European Association Political Consultant) e um dos primeiros filiados da Abcop (Associação Brasileira de Consultores Políticos).

Aspectos inovadores do trabalho de comunicação executado ao longo de décadas por ele foram tema de três teses de doutorado. Mantém escritórios no Sudeste brasileiro e nos EUA.

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